Foi um gol de placa. No ano em que o Curta Santos celebra o futebol, e o centenário do Peixe, prestar homenagem à atriz Laura Cardoso foi uma jogada de mestre. No Brasil, temos, para nossa sorte, grandes artistas. Porém, a paulistana Laurinda de Jesus Cardoso Baleroni está no patamar daqueles nomes inabaláveis, de carreiras construídas na base do talento, de muito trabalho, e que geram respeito e admiração de todos: um panteão para poucos: aqui, Fernanda Montenegro, Cleyde Yáconis; lá fora, gente como Katharine Hepburn, Ingrid Bergman, Julie Andrews.
Aos 85 anos, celebrados no último dia 13, a paulistana tem energia de menina. Dois anos atrás, encantou centenas de pessoas no lançamento, na cidade de São Paulo, de sua autobiografia “Laura Cardoso: Contadora de Histórias” (de Julia Flaks, Coleção Aplauso), na qual, inclusive, se diz admiradora de Al Pacino.
Na segunda-feira (17), foi a vez de mil felizardos se renderem ao carisma da Doroteia, de “Gabriela”, provavelmente a melhor atração da atual versão para a clássica história de Jorge Amado. Foi durante a cerimônia do 10º Curta Santos, no Mendes Convention Center. Mal subiu ao palco e todos a aplaudiram de pé durante minutos. Gesto que se repetiria logo depois. Recebeu o troféu Lilian Lemmertz, pelo conjunto da obra. E que obra: profissional completa, Laura criou trajetórias bem sucedidas não apenas na telinha, mas nos palcos e na sétima arte.
No cinema, destacam-se trabalhos desde os anos 1960. Mais recentes, o magnífico “Terra Estrangeira” (1996, de Walter Salles); e “Através da Janela” (2000, de Tata Amaral). Este último é o trabalho da atriz preferido pelo Diretor Geral do festival, Ricardo Vasconcellos. “Buscávamos um homenageado que representasse a grandeza do cinema brasileiro. E o nome da Laura surgiu no momento certo: uma atriz completa, que se sai bem em cinema, teatro, televisão, e que já foi dirigida por um santista e faz o maior sucesso atualmente, em ‘Gabriela’”, diz o produtor.
O diretor santista, no caso, é José Roberto Torero, responsável pelo curta “Morte’ (2002), estrelado por Laura e Paulo José. O vídeo está disponível no YouTube e traz a dupla na pele de um casal que se prepara para fazer a “viagem”. Grande momento do diretor e dos atores.
A chegada da homenageada ao local da cerimônia foi bastante aguardada. Produtores, público e imprensa disputavam a chance de trocar uma palavrinha que fosse. O Espaço de Cinema conseguiu bater um papo rápido com ela, no mezanino. Perguntada qual o momento mais marcante de sua longeva jornada profissional, não hesitou: “Para ser sincera, toda minha carreira foi e é importante para mim. Será, até eu ir embora. Eu não tive um filme, novela ou peça de teatro que eu gostasse mais. Todo o meu trabalho me fez e faz muito feliz. Amo meu trabalho, amo minha profissão. Amo e respeito. Sempre tento fazer o meu melhor. Quero fazer sempre melhor. E sou muito dedicada”, disse com simpatia e simplicidade incomparáveis.
Fica a lição de quem sabe para os jovens “artistas” que se deslumbram ante o primeiro elogio. E que Laura viva, trabalhe e encante por muitos anos. Neymar? Entre os vários golaços do 10º Curta Santos, é Laura o mais completo.
Fonte: G1

